domingo, 21 de outubro de 2012

"E a melodia que há em nós, respira o dom de ser um só, de tantos ós"

O nosso belo é o nosso de cada dia.  Cada chego, cada cheiro. Cada encontro cada despedida. Beijo longo, beijo curto, beijo curtíssimo. Sem batom. É lábio no lábio. "Parado no ponto não fico mais não. Acabou de passar mais um trem. E agora eu só ando de trem". Agora eu não consigo mais dormir sem escrever ou parar em um canto, não sei se bom ou se ruim. Minha mala tá pronta. Só ir. E eu tô indo. Indo e indo por aí. Não sei por onde, mas tô indo. Tô vivendo, amigo. Vivendo e cantando Dylan pra cada ônibus que eu pego. Parece que eu ando carregando meu coração nas mãos à cada lugar que eu vou. Tomando um cuidado danado pra ele não cair da minha mão. E quando eu fico perto dele, antes mesmo de vê-lo, eu o jogo. Eu jogo meu coração de olhos fechados pra ele. Ele vai pegar. E ele vai estar quente, e ele vai mantê-lo mais quente ainda, e cuidar dele melhor do que eu cuido. Eu achei um papelzinho que eu guardei quando eu tinha uns oito anos, e dizia assim : o amor é um movimento/ o amor move a gente / a gente move o amor/ o amor se mexe, atrai e expande/ o amor mexe com a gente/ a gente mexe com o amor. Eu achei lindo, porque eu me lembro que tive muita vontade de guardá-lo, mas não passou disso. Foi só bonito. Achei-o escondido no final da minha caixa e ele coube perfeitamente agora. Eu acho que eu tô começando à entender esse meximento todo de amor e da gente pra cá e pra acolá. Acho que por isso que a vida só se dá pra quem já se deu. Porque a gente precisa meter o pé na estrada e escutar Bob Dylan. A gente precisa aprender à rir sozinho dentro dos trens e deixar todo mundo olhar e a curiosidade matar. A saudade mata. Me mata. Mas assim como o samba deixa a fossa mais bonita, a saudade diz o mesmo do amor. Vale mais a pena. A gente precisa sofrer de amor pra depois quando passar, receber aquele cafuné. A gente precisa aprender que a importância é aquilo que você faz dela. "E a melodia que há em nós, respira o dom de ser um só, de tantos ós." Tô com ateliê em um lugar aí, que tem  portas-palavras, telas em branco pra gente pintar o que quisermos. Pra gente construir. Pra gente fazer cálculos. Pra gente escrever poesias. Pra eu te desenhar. Pra eu escrever que o amo. Só por favor, "Me mira ira. Me mira mas me erra!"
Eu havia me esquecido de como aquele vento frio na cara era bom. Eu havia me esquecido de como aquela casa era confortável e de como era bom ser querida em algum lugar, de como era bom andar naquela rua sozinha, e de como eu a achava bonita antes de ir embora. E agora eu a acho muito mais bonita que antes. Os passos iam e minha mente se afogava nas lembranças, em quantas vezes eu andei por aquela rua, chorando ou sorrindo. Nos últimos tempos, mais sorrindo de tanta cerveja do que outra coisa. A rua era lindo. Eu vi um pôr-do-Sol desenhado no chão, e eu fazia questão de olhar pra ele todas as vezes que eu passava por ali. E hoje, não foi diferente. Indo visitar uma velha, velha amiga. Ele tava lá, do meu jeitinho, e as gaivotas continuam lá. E eu quero que ele fique lá até eu carregar uma mãozinha pequenininha junto da minha, e mostrar - filha, aqui a mamãe via o pôr-do-Sol. Eu acho lindo porque era do mesmo jeito que eu desenhava o pôr-do-Sol quando eu era criança, e acho que meu maior desejo em todas as vezes que eu desenhava, era que aquilo algum dia fosse verdade. Verdade que eu iria ver uma metade de Sol laranja, amarelo e vermelho. Era bem assim. Tinha tantas gaivotas pretas e simples que por vezes até estragava meu desenho. Porque eu gosto muito delas, das gaivotas. O mar do mesmo laranja, amarelo e vermelho. Tinha até uma veleiro. Era bem pequenininho em relação ao tamanho do meu Sol. Eu ainda não achei esse pôr-do-Sol na minha vida, mas acho que eu tô chegando bem perto dele. Eu já sinto até o calor me arrepiando devagarzinho. Acho que é por isso que durante minha vida toda, até agora, minha luz favorita seja essa laranja durante um fim de tarde. As pessoas ficam mais bonitas, mais pensativas. É uma luz que traz paz. Me  traz felicidade interna. Porque é isso que é felicidade pra mim. É felicidade interna, é você conseguir sentir um sentimento incontrolável que você não sabe exatamente o que é. Tá ficando de tardezinha, tô começando a sentir o calor...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Menina, tu és maleável. Não sejas assim. Antes a vida te dê uma surra, vai-te e muda. Tu pareces aqueles camaleões, tudo que te aparece tu ficas igual. Sei lá, é que eu sou chata pra isso. São minhas características, minhas definições, meus letreiros e dou tanta importância à eles que tu deverias hacer lo miesmo. Tu és especial demais pra alguém, um simples alguém tirar isso de você. Te impõe. Enche o peito,aumenta a música e esvazia quando for dormir, mas não desliga a música...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Porque raios?

É que dá vontade sabe? Vontade de quebrar tudo. Desarrumar o que está arrumado, quebrar uns vidros, socar rostos, vomitar de tanto nervoso. Dá vontade de xingar, arrancar meus cabelos. Não. Uma coisa que eu aprendi com a minha mãe, é que nessas horas você imagina uma privada. Imaginou? Agora enfia a cara lá dentro e grita o mais alto que você conseguir. Funciona, ô se funciona. Pra dar uma melhorada na eficiência você imagina seu corpo totalmente invertido e sua cabeça enfiada na privada verticalmente. O desespero era tanto que eu não só imaginava, mas realmente enfiava a cara na privada e gritava, e meus gritos vazavam pela casa, e depois saía andando de nariz em pé, e nada havia acontecido. Mas ultimamente a maneira de voltar ao normal é pensar em mim. Em tudo que eu já fiz . Não me dando à importância mas pensando em por quantas coisas eu passei . Aí vem logo uma boa taça de vinho na minha cabeça, um papelzinho e uma caneta. E se a vida é curta demais para se beber maus vinhos, mas porque raios me dá tanta raiva na hora ? Mas outra coisa que eu aprendi faz pouco tempo, é me dar ao respeito. Porque todo mundo é muito sábio quando se usa sábias palavras. O complicado, meu amigo, é virar essas palavras pra gente mesmo. Fiquei sabendo que um casamento de  31 anos de uma muito amiga, acabou. Porque ele a trocou por outra. Não vou falar sobre esse assunto, pois meus olhos enchem de lágrimas e perco as forças só de me por eu seu lugar, e se o amor fosse meu. Não tenho aguentado ver filmes sobre isso, ouvir músicas sobre isso, nem ler livros sobre isso. Mas não pude evitar de ouvir esse final sem feliz. Acontece que eu estou tão feliz. Tenho sentido tanto orgulho de dizer o meu anteriormente do amor . Mas está aí, a vida tá passando, tá seguindo, o tic-tac tá batendo, o sangue correndo. Pra no final pensar  "a vida é boa, irmão". Eu tenho pensado nisso tudo pra acabar com a minha vontade de explodir garrafas de vinho na parede e me acalmar. Achei o meu eu pra voltar à escrever. Pensar de novo "calma, tudo têm dois lados pra gente olhar" e ao invés de olhar pra esse lado meio violento e sem jeito, eu tô aprendendo à olhar o outro. Minha respirações mais profundas agora são de acalanto e calmaria. Imagino um milhão de passarinhos saindo de mim e me desfazendo quando respiro desse jeito. Imagino eles indo embora, sem ter previsão de chegada até conseguir o que eles queiram. Pra pensar em como tudo pode passar, se ajeitar. Não sentir remorso e você receber os beijos mais verdadeiros entre todos os poetas românticos.
Inspiração dos desaspirantes
Agonia de desalmados
A coragem dos desencorajados
O fogo dos gelados

O presente do passado
A interrogação da exclamação
O coração sem o pulmão
Portões de ilusão


AngoneseM.

Ah, meu grande Tom sempre lá pra me dar uma forçinha, mais valendo como um tapa na cara talvez. Tipo um -bora mulé, pare de ser burra!
"Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim que nada nesse mundo levará você de mim. Eu sei e você sabe que a distância não existe que todo grande amor só é bem grande se for triste. Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer que todos os caminhos me encaminham pra você. Assim como o oceano só é belo com luar. Assim como a canção só tem razão se se cantar. Assim como uma nuvem só acontece se chover. Assim como o poeta só é grande se sofrer. Assim como viver sem ter amor não é viver. Não há você sem mim e eu não existo sem você."

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dois de Dezembro

Eu odeio sentar naquela cadeira e olhar para as mesmas árvores que eu olhava, sentada na mesma cadeira, às nuvens em seus mesmos horários. Era tardezinha, lá para umas quatro horas e quarenta minutos. Aquela sala tem o mesmo cheiro quando sento naquela cadeira e olho pela janela. Essa cena prioriza os pares, enquanto ele só gostava do ímpar. Do sete para ser mais exata. Só de pensar nessa fotografia eu já repasso tudo que acontece. Posso estar lá pro sul, mas quando penso nessa cadeira e nessa janela, pego um vôo direto pro Rio de Janeiro. Aquilo algum dia foi-se apenas uma cadeira e uma janela, e aquela vista foi apenas uma vista. Não depois do dia Dois de Dezembro. Aos sofrimentos e lágrimas, estávamos sentadas na sala, de luto por um único amor de todas as nossas vidas. Um para todas. Todas para Um (sim, com letra maiúscula no meio da frase). Tomávamos chá, um muito do sem gosto pra ser sincera, com umas bolachas dispensáveis. Quietas. Fingindo que tudo se passou. E os fantasmas da saudade nos apavorando e devorando como um ácido por dentro. Como se não bastasse meus olhos, meu coração era a definição da cor roxa escuro. Ela se arriscou, e com dor e inconsciência, nos questionou sobre o maior dos problemas : a data. Era dia Dois de Dezembro. Um número par. De um um mês par. De um último mês. De um último ano.  Foi o pior dos dias. Quando ouviu a resposta e abriu as portas para a realidade, era o aniversário do amado. As lágrimas tomaram conta de seus olhos, não escreverei a palavra novamente, porque elas nunca haviam os abandonado. E foi nessa exata hora, que me fez eternizar o momento da cadeira-janela-nuvens-tarde. Quando vi o sofrimento estampado, colado, massacrado em sua expressão da alma, olhei para a janela, respirei fundo, fiz questão de me sentir presa à cadeira ( sentindo o resto da vivacidade que ainda havia em mim), tinha nuvens lindas no céu. Nuvens laranjas. Da cor daquelas nossas nuvens italianas que diz que vai chover no dia seguinte que só você sabia pronunciar suas raízes tão belamente, por mais que eu tentasse aprender. Eu nunca vou pronunciar o r do seu jeitinho. Porque você não tá mais aqui pra me corrigir. Você também não está mais aqui pra eu te abraçar com aquele cheirinho de madeira. Eu odeio aquela janela. E odeio porque se eu fechar os olhos, eu ainda posso sentir o frescor daquele ventinho batendo no meu rosto e secando a umidade das lágrimas. Aquele frescor que alivia a dor, que faz sua alma pulsar. Eu acho que eu odeio mais ainda aquela cadeira, com aquela mesa, junto com a janela, porque foi lá que eu e a minha irmã, fizemos a sua última festa de aniversário. Foi surpresa. Acordamos às cinco da manhã pra fazer tudo, de um dia Dois de Dezembro. Lembro-me perfeitamente dos seus sorrisos, e dos seus beijos de agradecimento. Eu te amei tanto naquela hora daquele beijo, que eu me foquei tão forte, mas tão forte que eu guardei ele pra sempre no meu peito. Os números ímpares foram aumentando junto com a minha conformidade e aceitação mas não a minha saudade. Ai, essa me dói tanto. Eu amar você. Eu vou escrever errado, pois depois de muitas interrogações em relação ao tempo verbal para usar, eu descobri que eu amei, eu amo, e eu amarei, portanto, eu AMAR você! Um sentimento eterno. E agora, dou risos de saudades.

Invidere

Meu e meu
somente meu.
Nada teu.
Até tudo virar breu.
Obscuro é o que penso,
sem mais, dispenso.
Paro,
reparo.
Não quero lembrar,
e sem sucesso, imaginar.
Saia da minha sombra.
Sua voz me assombra.
Seu riso me enoja,
seu sorriso, se borra.
Tão falso, querida, não forçe…
E muito menos se esforçe.
Desligue-se da minha mente,
Vai-te, e me deixe viver contente



AngoneseM.

Inquiet

Sai velho entra novo 
Fica roxo de morto
Cegueira martelada
Para não dizer forçada
O pescoço estala 
Voz intalada
Gritada
Aguniada
Os ossos rugem 
Frágeis como lanugem
Permaneço penumbrante
Arrogante

AngoneseM.

cheirinho de roupa lavada

Estava eu fazendo algo que sempre faço. Meio bizarro, podemos dizer, mas lá estava eu olhando a máquina de lavar. É, eu faço isso, passo horas refletindo com o nariz grudado na tampa. Vendo as roupas rodando e imaginando em que elas poderiam estar pensando. Sim, as roupas pensam. Tudo pensa. Até a água pensa. Sabe de outra coisa também que eu gosto? É tomar banho no escuro escutando música bem alta. Comer um ovo quando a fome está te matando junto com um café bem quente. Eu ponho meia pra dormir só para ter o prazer de quando o colchão está bem quentinho, tirá-la. Acho que os pés ficam mais sensíveis. Mas a melhor sensação mesmo é quando alguém penteia seus cabelos, bem devagar. Gosto de sentir as unhas recém pintadas e o barulho do vinil sendo arranhado. São coisas em que faço questão de observar com calma. E me fazem pensar no que vai acontecer daqui pra frente…

Alcaparras Alcachofras


Tinha poesia na rua
vendedor de poesias 
vendendo almas
Tinha blues na música
com sorvetes 
e um soxofone preto
e uma gaita normal
Tinha tatuagem na pele
na pele enrugada e velha
Tinha um mercado pobre
com alpargatas com cheiro de alcaparra sendo alcachofra


AngoneseM,

Jantar

Ele era bonito. Cheio de perfume caro e cheio de formosuras. Ele me lembrava um quadrado. Não o adjetivo quadrado que qualifica-o como chato. Mas o quadrado substantivo. Um queixo quadrado, ombros quadrados, nariz com uma mini quadradinho na ponta. Ele tentava agradar à todos. E conseguia. Era engraçado, e me servia de mais comida. Infinitamente educado e altamente diplomático. Em suas lentes não havia uma única imperfeição. Ele tinha uma mulher, loira. Uma loira linda de cabelos curtíssimos e olhos azuis. Com uma postura sempre correta e que não fazia um movimento que lembrasse que poderia estar confortável naquela cadeira. Eles combinavam, ele com sua beleza estonteante morena, profunda e definida. E ela com uma beleza que algum dia, provavelmente, foi leve, frágil. Já a loira, me lembrava um lenço branco, bem fininho, quase transparente. Maleável. Mas essa fragilidade foi corrompida com o tempo, por ele. Pelo quadrado moreno. Na outra cadeira, tinha uma mulher meio esquisita, meio , digamos, desprezível. Ela fazia brincadeiras de mal gosto e piadas sem graça. Era baixinha, com umas pernas bem finas segurando uma barriga bem desproporcional ao seu corpo. Não tinha delicadeza. Mas no fundo havia uma beleza, bem antiga. Eu achava o quadrado e o lenço lindos. Eles se encaixavam. Assim como uma caixa de presente com um lenço fazendo um laço. Mas essa caixa de presente se desmoronou quando o diplomático moreno e altamente educado, virou para a alvi-beleza e disse quase em cores ” Cala a boca, mulher!”.  E acabou a descrição por que eles se desmancharam dentro de mim, e viraram duas pessoas ordinárias. E nesse momento, eu desejava ficar conversando com a mulher simples, e meio desprezível. 

Picasso

Interessa-me essa coisa de um Picasso meio listrado, de uma cama meio sem pé ou de um romance meio briguento, de uma roupa meio suja e de uma escritura mal escrita. Admiro a grosseria delicada de poucos e entendo o não entendimento.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Barulho do Trem da Madrugada


penso nas pessoas que morreram
nas que viveram
antecederam e sucederam
penso nas mortes de ontem
nas de amanhã
nos trens passados
futuros roubados
penso no pseudo eu quero ser
e no talvez amanhecer

AngoneseM.

Listras

me interessa essa coisa de um Picasso meio listrado, de uma cama meio sem pé ou de um romance meio briguento, de uma roupa meio suja e de uma escritura mal escrita. Admiro a grosseria delicada de poucos e entendo o não entendimento.

Veracidade de um Chapéu velho


não se tem fartura
é tudo manufatura
mas tudo se continua
porque a vida é dura…

Sábia Marisa

Quando me vêem com essas músicas de romance me dá um troço que eu tenho que correr e apertar o skip com força pra ter certeza que a música passou. Já olhei bastante pro meu umbigo, pro meu nariz. Cansei. Eram 35 luzinhas piscando no meu teto quando ontem, fiquei observando-as deitada de cabeça pra baixo. Não sei se bom ou se ruim. ” Desilusão. Dança eu, dança você a dança da solidão”

Texto de enrolação para uma futura poesia

É isso que eu vou fazer. Eu gosto dessa imensidão de escritora que vem em minha mente quando me tranco em um lugar completamente escuro, apenas acendo uma vela. Ela faz ficar mais escuro onde  não está iluminado. E é pra lá que eu fico olhando vários minutos. Viajando nos derretimentos dos meus pensamentos. Meu sono viajou e não tem data de chegada. Sai uns arranhados no violão. Sai umas rimas de uns tercetos e quartetos. Não chegam à ser sonetos. Sai umas letras de músicas brasileiras do estilo meio 30’s, tipo Orlando Silva. À procura de uma inspiração conspiradora. Coloco às mãos nas minhas bochechas quentes e sinto meus brincos. Sim, estou usando brincos. Poque eles foram dados à mim por uma pessoa especial. Foi a primeira jóia dessa pessoa. Que a bisavô da bisavô de todas as bisavós deu pra ela. E agora está na minha orelha. Acho que vou deixar aqui pra sempre. Não é o brinco da moda. E daí ? Estar na moda é brega! Essa é a minha moda. Falando em moda. Acabei de lembrar que eu entrei em um banheiro e tinha uma frase de um homem na parede. Eu provavelmente farei isso na minha casa. Vou colar frases desses poetas franceses que tanto amo nas paredes dos banheiros. Talvez no teto. Eu gosto de olhar pro teto, porque ninguém olha pra ele.   Eu me lembrei do autor, era um tal de Valéry. Dizia algo do tipo “elegância é a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado sutil de se deixar destinguir”. Me marcou. Ele não entendeu a frase. Eu sai do banheiro com fome. Acho que elegância dá fome. Deve ser isso. Acabei de negar um convite ao vinho pra ficar aqui escrevendo esse texto sem fundamento. Esse texto? Isso nem é um texto nem rabisco, nem nada. É um monte de palavras que estão voando pela minha cabeça e eu estou forçando-as à sair de alguma maneira. Por isso o sem nexo. Entenda. Eu preciso me compreender, e pra isso eu preciso me descompreender. Hoje eu ouvi mais um ” você é estranha!”  Gosto de ouvir isso. Sabe, é mais legal ouvir isso do que um ” nossa, como você é normal né?” Tá, eu vou parar…

mas Vó...

a gente dorme com as feridas no peito
por tentar amar
o resto fica tudo assim por desleixo
deixa errar 
o enjôo sobe e desce
a paz adormece
não minta
se antes não era amor
era algo parecido
distinguido
aos olhos de uma mulher 


AngoneseM.

Vai e Vem

Tava começando a fazer falta esse cheirinho de casa na praia. Aquele cheirinho leve, que te lembra que por uns dias, nada passa a ser tão importante que não possa ser esquecido. Aquele cheirinho que te acompanha que te faz não se sentir sobrecarregado, que faz você ignorar todos os seus bens materiais que estão em exagero em um lugar muito longe de onde você está. O pouco necessário é o que seu corpo pede. A alma vai ficando leve, tão leve que parece que a brisa à beira-mar vai te desmanchar. As ondas te lembram daqueles que vêm e vão da sua vida. Cada uma de uma maneira singular. A única coisa constante passa a ser seu batimento cardíaco. Seu coração quase pula do peito se não existe nada ao redor. Só você e a saudade. Saudade de quem se ama. Saudade de todas as noites juntos. Saudades da maneira que apenas ele segura sua cabeça, apertando-a contra seu peito, como se você fosse só dele. E pronto. Beijos, lindos beijos. Amor, o mais lindo e puro amor. Amor de quem se ama. Em breve isso acontecerá de novo, em breve, meu bem. 

Né não, Zé ?

Quem diria que te conhecer ia dar nisso? Engraçado como a vida segue. Essa realmente foi uma parte da minha vida que eu nunca havia nem se quer imaginado que pudesse acontecer. Não sou de planos, eu odeio planos e encontrar você foi descobrir que a gente não precisa deles sendo criados por nós. Plano pra mim, agora mudou de significado. Eu plano ir dormir com você como todos os dias, sem ter hora pra acordar. Eu plano não ter nossos planos de almoço. Você entrou sem nenhuma pena e virou minha vida ao avesso. Eu sei que você está lendo isso agora. Não quero que tenhas dúvidas. Sou sua. Nossas brigas são horríveis. Nós somos estúpidos, grossos, e sem paciência. Fazemos charme, temos orgulho e não damos o braço à torcer, mas eu não vivo mais sem você. Quando as coisas perdem o brilho que elas tinham antes por uma pessoa, esquece delas e ponha um anel no dedo. porque essa é a pessoa que você vai querer estar quando você estiver com oitenta e nove anos. Não frequentamos os mesmos lugares; eu tenho meu rock’n’roll e você sua viola; você tem o chapéu e eu a vitrola. Mas a gente vai ter que fazer igual ao salmão pro resto de nossas vidas : a gente compartilha o mesmo peixe, só que o seu é cru e o meu é com alcaparras. Ou a gente esquece o salmão, e se você quiser meu bem, eu como o salmão cru inteiro pra você!



Bar-vagão

Eles dançavam com  suas vestimentas dentro de um vagão, um bar-vagão, com janelas pequenininhas, em chamas. Como se não existisse dor. Como se não estivesse queimando. Passando pela rua por perto, eu só vi o vermelho das chamas em movimentação delicada e sincronizada. Escutava garrafas de whisky explodindo. Andava eu, acompanhada de duas pessoas, que não faz muita diferença o rosto, porque eu não me lembro. Passava bem perto das janelas exaurindo fogo, a grande estranheza é que eu não me queimava. Pelo contrário, eu estava apática. Nenhuma reação. Nem de ajuda, Nem de sofrimento alheio; “eles que são os bêbados, que se entendam” pensei. Notei mais que a rua era de pedras, talvez pelo meu fascínio por ruas de pedra. Velharias, como sempre. Eu sabia de uma única coisa, eu queria chegar em algum lugar e nesse lugar tinham coisas escritas que me interessavam muito. Não me pergunte o que, porque eu vou responder que não me lembro, de novo.   Eu apenas queria muito aquilo. Era meio real, coisas de rainha, e de histórias confidênciais de trono e sucessão. Caminhando pela rua de pedra, me dei conta de uma sala, na direita, meio caída. Entrei lá com os dois desconhecidos-conhecidos, e estava em escrituras bem grandes e claras no chão : ” Do que adianta o que foi escrito, se o que realmente importa, é o que eu vou escrever a partir de agora?”. Pronto, acordei.

Café, por onde andas?

E aquela cafeteira era tão bonita pra mim. Tão bonita que olhei de vários ângulos diferentes. Eu sendo turista. Mas dessa vez, o café foi diferente. Eu decidi tomá-lo e em cada segundo de cada gota dentro de mim, seria apreciado. Uma terapia talvez? Acho que foi. Pra tentar manter a cabeça no lugar. Mas o melhor mesmo é no final. Quando a gente lambe os lábios e fecha o olho devagar pra apreciar  os últimos sentidos diretos entre você e o café. Nada nesse momento me atrapalha. O dez andares abaixo de mim poderiam estar caindo, e eu ainda estaria me deliciando. Enquanto todo mundo se preocupa em dormir, estou a cá. Preocupando-me em escrever. Preocupando-me em olhar pra janela, e ver um bando de prédios velhos e lindos. Sujos e charmosos. Acho engraçado os guarda-chuvas vistos de cima. Eles me dão a impressão que são pula-pulas, e que a gente pode se jogar em cima deles. Não vou tentar. Isso não é um texto suicida. Pronto, chegou o momento dos lábios. Ok, acabou. Vou para outra caneca de café. Acho engraçado também como que eu só acho meu cabelo bonito à noite. Porque será? Porque ninguém vai ver, né? Na verdade, certas coisas são feitas só pra noite. Coisas feitas pra noite, são coisas que só ficam bonitas à noite. E que de dia a gente esquece delas, e elas ficam imperceptíveis. Mas não são. Tipo meu cabelo. Ou as velas. Ou incensos. Adoro acendê-los. Apenas à noite. Eles são tão lindos que merecem ser analisados individualmente e sem outras distrações visuais. Agora é uma caneca de chá. Acabou o café.

O que me faltava lhe dizer...

“E aqueles problemas? Passaram ? É, eles andaram, digamos assim. Se eu ficar pensando nisso vai virar minhoca na minha cabeça. Morreu então.” E pensando bem, muita coisa morreu. E com um tom muito escabriado eu canto ”me faça amor, por favor, me faça morrer de rir”. Eu ia me casar com você era o nome da música que me fez tomar rumo nesse texto, e finalmente começar à soltar aquilo que eu estava prendendo. Vão ser vários, e meu coração que os aguente e se tiver questionando algo , meu amor, é tudo pra você. Como fui deixar tudo por um fio por causa de uma escolha? Você me quebrou com aquelas palavras. Me fez desabar em questão de segundos, como se eu estivesse pulando de um prédio do décimo segundo andar e pudesse sentir o vento acelerado e resistente em meu corpo, minha cegueira, meus ouvidos surdos e sentindo a morte se aproximando. Mas ao contrário do acontecido na música, onde o final feliz estava tão longe quanto à morte pra mim, você disse que me amava, com um olhar tão sincero, tão lindo e decepcionado. Falar essa palavra  se torna um milhão de vezes mais pesada quanto o assunto é você mesmo e com tamanha força que aumenta a gravidade e arranca lágrimas de seus olhos com mais rapidez. Esse poderia ser o final da música, mas não, foi o meu final. Foi um final lindo pra acabar com uma fase tão feia. E depois disso, a ferida está fechando, e essa cicatriz em mim começa à nascer. E com o tempo ela vai ficar tão apagada que a gente vai esquecer o início da dor. Você me mudou. E nos resquícios antigos do meu eu, com o mais inesperado e indesejado erro você me desculpou e me salvou de novo fazendo minha alma voltar à pulsar. Obrigada por me negar aquele beijo. Obrigada por me chamar pra dar um volta (a pior volta da minha vida). Obrigada por levantar meu rosto todo molhado de lágrimas. Obrigada por me puxar pela mão e subir as escadas. Obrigada por quebrar minha cama. E muito obrigada por me amar, com meus piores defeitos. E agora, deixo cair minha lágrimas de felicidade, no tempo certo da gravidade em que o Universo a impõe, por ter você ao meu lado. E por finalmente sentir o que eu procurava há muitos anos. Não posso te jurar que serei perfeita e agir corretamente em todos os momentos, mas eu posso te jurar de dedinho que eu vou  me esforçar o máximo pra isso. E hoje eu te desejo tanto, mas tanto que eu deixei pra lá todos os meus rumos e minhas preocupações com o que virá, pra viver todos os dias detalhadamente ao seu lado. Obrigada, amor. 



São os mais belos olhares
a mil
Que quiseras flores jasmim
Sucumbiu.
São pássaros à voar
E os mais velhos barcos
À navegar.
São os corações à palpitar
E as mãos à devaniar.
São lençóis suados
Beijos molhados.
São viagens nos longos cabelos
Não tenhas receios, medos.
São futuros à esperar
de um destino à nos integrar.
São janelas abertas
À sonhar
E a ti amor, esperar.
AngoneseM.